Nasce-se cada vez menos em Portugal. O número de filhos por mulher cai para menos de metade em 60 anos. O total de nascimentos também descambou. Já somos um país de idosos e as políticas públicas não chegam. Os privados chegam-se à frente.
Em seis décadas, Portugal passou de um país de famílias numerosas para um caso exemplar de baixa fecundidade na Europa. Nos anos 60, registavam-se cerca de 3,2 filhos por mulher, acima do limiar de substituição de gerações de 2,1. Hoje, está em cerca de 1,45. Caiu quase 55%. Em paralelo, os nascimentos anuais recuaram de valores superiores a 200 mil por ano para os 87.764 registados do ano passado, que, ainda, assim, até traduzem um aumento.
É com este cenário, que se agrava a cada ano que passa, que se fala em políticas de natalidade e em incentivos. Poucos para alterarem tendências de fundo, mas talvez suficientes para ajudarem a mitigar os efeitos.
Perante isto, os privados também dizem presente. Um conjunto de 26 empresas nacionais já está a agir, em resposta ao movimento Mais Fertilidade, nascido em junho de 2025 e que tem visto adesão por parte de empresas.
Junta nomes de peso da economia cujo objetivo comum é enfrentar a crise silenciosa da baixa natalidade através de políticas concretas no local de trabalho. No setor farmacêutico, destacam-se a Merck, a AstraZeneca e a GSK, mas a iniciativa alarga-se muito além da saúde, ao retalho, consultoria e grande consumo, com empresas como a Wells, NOS, PwC e o El Corte Inglés.
A génese deste movimento remonta ao “Manifesto pela Igualdade Reprodutiva”, apresentado em Paris, em outubro de 2024. A partir daí, ganhou forma uma plataforma que procura responder ao difícil acesso à saúde reprodutiva, à falta de literacia sobre fertilidade e à escassa conciliação entre vida profissional e familiar.
As empresas aderentes não têm custos de entrada, mas assumem um compromisso claro — implementar, no prazo de 12 meses, medidas concretas de apoio à parentalidade. Para sinalizar esse compromisso, foi criado um selo identificativo que distingue quem decide não ficar à margem deste desafio demográfico.
O que já se está a fazer…
É neste contexto que surge o caso da Merck, uma das multinacionais que mais longe levou esta agenda. A farmacêutica, com cerca de 62 mil colaboradores em 22 países, decidiu começar “dentro de casa” e criou um benefício de apoio à fertilidade que pode atingir os 16 mil euros por família. A ambição é significativa: em termos potenciais, o programa poderá representar um investimento global de mil milhões de euros. “Até ao momento, cerca de 750 colaboradores já recorreram ao benefício a nível internacional”, diz Rita Reis, Senior director, Value, Acess, Government & Public Affairs da Merck Portugal
Em Portugal, onde a empresa emprega 75 pessoas, o programa já produziu resultados concretos. Já nasceram bébes portugueses com esta ajuda. “Caso todos os colaboradores viessem a recorrer ao valor máximo disponível, o investimento poderia chegar a cerca de 1,2 milhões de euros no nosso país”, contabiliza Rita Reis.
O modelo foi desenhado com um princípio central: discrição absoluta. Os colaboradores escolhem livremente onde realizar os tratamentos — consultas, exames, técnicas de reprodução assistida ou preservação de ovócitos — sem qualquer envolvimento das chefias diretas. Os custos são suportados inicialmente pelo trabalhador e posteriormente reembolsados pela empresa.
O pacote inclui ainda uma vertente preventiva, com a integração de análises como a hormona anti-mulleriana nos check-ups de medicina do trabalho, permitindo avaliar a reserva ovárica e antecipar decisões num tema onde o tempo é carrasco. Uma decisão antecipada de congelar óvulos, por exemplo pode ditar a possibilidade de realizar ou não o sonho de ter um filho.
O tempo, aqui, é tudo. A fertilidade feminina começa a diminuir após os 30 anos e acelera depois dos 35. “As mulheres nascem com um a dois milhões de óvulos, mas aos 37 anos, restam apenas 25 mil”, explica Luís Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, chamando ainda a atenção que estudos europeus indicam que cerca de 80% das mulheres desconhece este conceito. “Continuamos a achar que a menopausa é o limite da fertilidade, mas não é”.
O especialista lembra ainda que o fator masculino não pode ser ignorado: “A fertilidade masculina também não é imune aos ponteiros do relógio. “Quando o parceiro tem mais de 40 anos, o tempo necessário para conceber aumenta e o risco de aborto espontâneo também é maior”.
Num país onde cerca de 500 mil casais enfrentam dificuldades em engravidar, a resposta empresarial começa a ganhar escala.
Para Elsa Carvalho, Managing Director da WTW, Willis Tower Watson, a decisão de ter filhos raramente é apenas financeira. Está ligada à perceção de estabilidade, previsibilidade e confiança no futuro. No entanto, destaca que a realidade demográfica é clara: taxas de fecundidade persistentemente baixas e uma população mais envelhecida terão impacto direto na disponibilidade futura de talento, produtividade e sustentabilidade económica.
Na sua opinião, as organizações mais avançadas estão a perceber que o desafio não passa por criar benefícios isolados, mas por construir ecossistemas mais sustentáveis, com flexibilidade real, apoio à parentalidade, acesso a cuidados, modelos de trabalho equilibrados e culturas que não penalizem escolhas de vida.
Outras ajudas que contam
Também o El Corte Inglés decidiu integrar esta mudança. A adesão ao Movimento Mais Fertilidade no final de 2025 insere-se numa estratégia mais ampla de bem-estar e apoio à família. “Estes temas são fundamentais para um ambiente de trabalho saudável”, diz Susana Silva, Diretora de Pessoas do El Corte Inglés.
A empresa implementou medidas concretas durante a gravidez, como maior flexibilidade de pausas a partir da 22ª semana e adaptação de horários a partir da 30ª. Além disso, reforçou os apoios no momento do nascimento, com kits de maternidade e escolares e aprovou ainda uma medida específica com a atribuição de cinco dias de dispensa para a gestão burocrática que o processo requer.
“No domínio da educação são atribuídas bolsas de mérito aos filhos de colaboradores com excelente aproveitamento escolar. Nos últimos cinco anos, o El Corte Inglés investiu um milhão de euros neste incentivo. Além disso, realizou protocolos com instituições de ensino que permitem descontos em propinas, abrangendo desde o ensino básico ao superior. O que já impactou 100 famílias”, afirma Susana Silva,
Porém, a política do gigante do retalho vai além da natalidade: inclui programas de apoio a famílias com filhos com incapacidade e medidas simbólicas, como usufruir do seu dia de aniversário ou optar por meio-dia no aniversário de cada filho. Segundo Susana Silva, praticamente a totalidade dos mais de 3 mil colaboradores já beneficiou de alguma destas iniciativas.
Num país envelhecido e com uma natalidade em queda, o setor privado começa a assumir um papel que durante décadas foi quase exclusivo do Estado. A fertilidade deixou de ser apenas uma questão médica — passou a ser também uma questão económica, social e, cada vez mais, empresarial.
Publicado em: Jornal Económico